Arquivo para março, 2013

Como eu descobri ter Síndrome de Asperger

Posted in História on 01/03/2013 by Allan Taborda

Eu sempre tive um comportamento, de um modo geral, diferente do das outras pessoas. Não só o comportamento, mas a maneira de eu pensar, de agir, de me expressar, de uma série de coisas.

Sempre tive dificuldade de me relacionar com os outros. Na época da escola, eu ficava isolado de outros colegas, pois não me era interessante interagir com os mesmos. Quando eu tentava interagir com os outros, era como se eu falasse uma língua e os outros falassem outra, ainda que eu e os outros falássemos português. Isto também se repetiu na época da faculdade, embora nessa época eu já tentasse a todo o custo mudar isso, com poucos avanços relacionados a isso.

Meu problema de relacionamento não se dava apenas no ambiente presencial, mas também no virtual. Eu percebia que as pessoas me viam de uma forma diferente no Orkut, quando eu participava das comunidades, principalmente em comunidades onde havia bastante conversa. Além disso, eu acabava postando coisas que incomodavam as outras pessoas, ou coisas sem noção (e depois eu percebia que era sem noção). Cheguei a chorar uma vez quando vi que não conseguia me relacionar nem pela Internet, numa comunidade onde o povo conversava sobre assuntos variados. Mais recentemente, tentando arranjar uma namorada pela Internet, comecei a conversar com uma moça muito bonita e vi que ela estava ficando interessada, mas eu só fazia perguntas e eu não sabia o que escrever, até que eu escrevi uma pergunta que parece que ela não gostou e ela me respondeu que eu fazia perguntas estranhas, aí ela parou de se corresponder comigo e eu fiquei muito frustrado.

Nunca liguei para o que os outros pensavam ou curtiam. Sempre quis ter minhas próprias opiniões com relação a tudo, ainda que tais opiniões fugissem do senso comum relacionado. Sempre tive meus gostos musicais independente da moda do momento. Não só os gostos musicais, mas qualquer tipo de gosto, como do que eu gostava de assistir na TV, do que eu gostava de fazer, do que eu gostava de brincar quando eu era criança (brincava principalmente com meu irmão, que era praticamente o único com quem eu me relacionava), do que eu gostava (e gosto) de fazer no computador…

Por muitas vezes, eu acabava não gostando de nada do que havia em uma determinada área, como do teor dos textos que eu tinha que copiar quando eu estava na escola, nas aulas de português, ou como o teor dos enredos de séries de TV que passavam na época (apesar de eu assistir um ou outro seriado), então eu acabava por criar meus próprios textos e meus próprios personagens cujas histórias que eles participavam tinham enredos criados por mim.

Desde que eu me conheço por gente, eu consumo ter manias estranhas, com a de mexer com os braços, as mãos e os dedos de forma repetitiva ou limpar a boca seguindo sempre com os mesmos passos, na mesma ordem. Quando eu era bebê, segundo a minha mãe (e há também uma foto minha da época onde se pode notar isso), eu ficava abanando as orelhas repetidamente. Hoje em dia, eu não tenho tanto dessas manias repetitivas, só de vez em quando, quando estou sozinho, eu acabo por mexer os dedos repetidamente, e por uma quantidade menor de tempo do que antigamente.

Eu sofri muito bullying quando eu era criança, na época em que eu cursava da primeira até a quarta série do ensino fundamental, principalmente na quarta série, quando adquiri um grave problema na fala que tenho até hoje, embora o problema tenha diminuído bastante, com o passar do tempo. Meus colegas da época viam que eu era mais quieto, que eu seguia mais as regras que me eram impostas, viam que eu era “diferente” e me faziam de alvo para seus ataques de bullying.

Era perceptível que eu tinha algo de diferente das demais pessoas da mesma idade que eu. Eu mesmo percebia isso já desde a época que comecei a frequentar a escola. Durante alguns anos, acho que de meados dos anos 90 até 2005, minha mãe me levava ao ambulatório de saúde mental de Praia Grande (posteriormente, passei a ir sozinho), onde eu passava por consultas de psicólogas e psiquiatras. Cheguei a passar por uma fonoaudióloga, mas não fez efeito algum na minha fala, na verdade, só teve efeitos adversos. As psicólogas me ajudaram um pouco na parte emocional, já os psiquiatras passavam alguns remédios, mas nenhum diagnóstico do que eu tinha era dado. Os remédios prescritos iam desde antidepressivos até remédios para síndrome do pânico. Um psiquiatra disse que eu tinha dificuldade de aprendizado (com certeza, eu nunca tive isso, muito pelo contrário), chegaram a me falar que eu tinha um “problema crônico”, falando de um modo meio que pejorativo. Eu sei que tinha alguma coisa, mas eu não sabia o que era, mas parecia ser um problema dificílimo de ser solucionado, visto que, mesmo com os tratamentos, eu continuava do jeito que eu sou.

Em 2005, quando ocorreu a última tentativa de eu me tratar com um psiquiatra, me foram receitados uns remédios que fizeram meu comportamento ficar estranho, eu fiquei mais espontâneo e menos tímido, mas também comecei a agir de forma estranha e fiz coisas que eu não costumo fazer em meu juízo perfeito. Na época, eu acreditei estar ficando louco. Depois de ter uma crise de ansiedade e de eu adquirir dificuldade para urinar, foi comunicado ao psiquiatra sobre os ocorridos e o mesmo suspendeu abruptamente o tratamento, causando efeitos ainda mais adversos sobre mim, como uma depressão profunda. Cheguei a não ter mais vontade de sair de casa e pensei que talvez não voltaria à faculdade. Felizmente, isto ocorreu durante o período de férias e, até as aulas voltarem, eu já tinha quase totalmente recuperado da depressão.

Após o tratamento psiquiátrico fracassado, me tratei com florais com uma terapeuta holística (havia também consultas presenciais semanalmente). Alguns problemas como a ansiedade foram resolvidos, a habilidade de me comunicar melhorou um pouco, mas alguns problemas permaneceram, como o fato de eu nunca iniciar uma conversa e de não saber interagir com as pessoas.

Eu sempre me cobrei para ser o máximo possível como as outras pessoas. Tentava, na medida do possível, ser como as demais pessoas, ainda que muita gente não percebesse e até achasse que eu tentava ser diferente, especial. Lembro-me de que, na época da quarta série do primário, a professora (ou a diretora, ou ambas, confesso que não lembro com exatidão) gritou comigo dizendo que eu era um menino normal ou algo do tipo.

Durante toda a minha vida, formulei muitas teorias que explicariam o porquê de eu ser daquele jeito. Dentre essas teorias, estavam a de que a minha mãe não soube me criar direito e me criou errado, a de que eu era a reencarnação de um cachorro, de um gato ou de outro animal e que a reencarnação atual seria a minha primeira como humano, a de que eu era um espírito inferior (durante anos, eu fui espírita, hoje eu não tenho religião e não sei se Deus existe ou não), dentre outras teorias daquelas.

Sempre achei que boa parte da explicação para o meu comportamento era pelo fato de eu ser tímido. Eu acreditava, por muitos anos, ser extremamente tímido, tão tímido que eu acabei ficando do jeito que eu sou, ainda que outros tímidos que eu via não fossem como eu. Até que um dia, vi uma reportagem do Globo Repórter que falava sobre a timidez e mostrou o que era a timidez. Cheguei à conclusão de que eu não era exatamente uma pessoa tímida, pois fazia coisas que os tímidos não faziam, como falar em público (já fiz isso um monte de vezes). Além disso, vi que os tímidos não se comportavam como eu me comporto.

Houve uma época que eu pesquisei na Internet sobre alguma coisa que eu poderia ter. Cheguei a suspeitar que eu fosse disléxico, uma vez que minha letra é horrível e às vezes eu não entendia algumas coisas, mas aí eu vi o que era dislexia e descartei esse diagnóstico. Cheguei a ler o artigo da Wikipédia sobre Síndrome de Asperger, mas na época, o artigo estava mal escrito e era demasiadamente curto, dizendo que era uma condição parecida com o autismo descoberta nos anos 80 que consistia na pessoa levar tudo ao pé da letra, ou algo assim. Naquela época, eu descartei ter isso.

Entretanto, há cerca de um mês e meio, li novamente o artigo da Wikipédia sobre a Síndrome de Asperger e, ao contrário da primeira vez, acabei me identificando com os sintomas e características descritas no artigo, não com todos os sintomas e características, mas com a maioria dos mesmos, muitos que só eu sabia, pois não havia contado a ninguém. A fim de saber mais sobre a síndrome, pesquisei outros sites, que reforçaram a minha identificação com este diagnóstico, ainda que não feito por um psiquiatra (se eu não tenho Síndrome de Asperger, eu teria o quê então, uma outra síndrome com os mesmos sintomas da de Asperger?) e então eu acabei me autodiagnosticando como tendo Síndrome de Asperger.

Estou “digerindo” até hoje essa descoberta e desde então eu tenho feito mais pesquisas sobre essa síndrome, bem como sobre o autismo, uma vez que Asperger é uma das síndromes do espectro autista. Entrei em um grupo do Facebook sobre a Síndrome de Asperger, o Grupo Asperger – Brasil, e estou relatando minhas experiências acerca dessa síndrome, bem como participando dos tópicos criados por outros participantes.

Com esse autodiagnóstico, acabei por tabela entendendo melhor o porquê de eu ter tanta consideração, tanto carinho pela Mara, uma ex-colega de sala de aula dos tempos do ensino médio, chegando a chamá-la de irmã (ainda mais pelo fato de eu não ter uma de verdade). Provavelmente vocês devem ter percebido que o endereço do blog é irmaodamara.wordpress.com, ele vem do meu e-mail, irmaodamara@yahoo.com.br, que foi criado em 2004, após o término do ensino médio e quando comecei a faculdade. O nome de usuário do e-mail é uma homenagem à Mara. Como eu escrevi, eu sempre tive dificuldades para me relacionar com as pessoas, e para piorar, eu nunca conseguia iniciar uma conversa e sempre ficava quieto num canto. A Mara foi a garota que se relacionou comigo, conversou comigo, fez trabalho de escola junto comigo, me convidou para ir na casa dela passar o dia, veio na minha casa (isso ocorreu depois do término do ensino médio)… Ela me fez me sentir como se eu fizesse parte do grupo. Ainda que ela tenha pisado na bola algumas vezes (todo mundo tem seus defeitos e comete erros), sou até hoje grato pelo que ela me proporcionou. Hoje o nosso contato é mais pela Internet, já que eu estou morando em São Paulo e ela permaneceu em Praia Grande, no litoral paulista.

Descobrir que eu tenho Síndrome de Asperger me fez descobrir que não há cura para o que eu tenho, por outro lado, me fez descobrir que minha condição é mais comum do que eu pensava (eu cheguei a pensar que eu era o único assim), vendo outras pessoas com as mesmas dificuldades que eu. Ainda que eu não seja uma pessoa completamente normal, descobrir que eu tenho Síndrome de Asperger me fez sentir mais normal e não mais um ET.

Meu desejo é que a Síndrome de Asperger seja mais divulgada e mais conhecida pela sociedade, tanto para as pessoas terem mais informações sobre essa condição, tanto para quem está na mesma situação que eu ou tenha um filho nessas condições possa eventualmente se autodiagnosticar ou procurar um diagnóstico de um psiquiatra especializado.

Este post termina aqui. Confesso que este post demorou alguns dias para ser escrito, era para ter sido postado no Carnaval, entretanto, acabei demorando um pouco para terminar de escrever, até porque lembrei de coisas que eu passei e que mexeram um pouco comigo. Até o próximo post!

Anúncios